O Paquistão está a aumentar rapidamente o arsenal nuclear enquanto combate os rebeldes talibãs. Alguns membros do Congresso foram confidencialmente informados desta realidade, o que coloca dúvidas sobre se os milhares de milhões de dólares do pacote de ajuda militar proposto pelos Estados Unidos poderão acabar por ser desviados para o programa nuclear paquistanês. O almirante Mike Mullen, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, confirmou a expansão atómica de Islamabad numa única palavra durante uma prolongada intervenção no Senado na quinta-feira passada. Estava sentado ao lado do secretário da Defesa Robert M. Gates quando lhe perguntaram se tinha provas do aumento do arsenal nuclear do Paquistão. "Sim", respondeu Mike Mullen. O almirante conhece bem a susceptibilidade paquistanesa no que diz respeito a quaisquer referências à sua estratégia nuclear ou segurança nacional. Na administração Obama tem sido fonte de crescente preocupação a tendência do Paquistão para gastar grandes somas em novas armas atómicas. O país está a produzir cada vez mais materiais nucleares numa altura em que os EUA estão determinados em garantir a segurança de um arsenal de 80 a 100 bombas para que nunca caiam nas mãos dos rebeldes islâmicos. O esforço é dificultado pelo facto de o Paquistão estar a produzir uma quantidade desconhecida de urânio enriquecido destinado a uma nova geração de armas, depois da conclusão de uma série de novos reactores. O presidente americano Barack Obama apelou à realização de um tratado para impedir todos os países de produzirem mais material físsil - a parte mais difícil da produção de armas nucleares -, mas, até agora, não se pronunciou em público sobre o Paquistão. Responsáveis da administração Obama dizem ter comunicado ao Congresso pretenderem garantir que a ajuda militar ao Paquistão fosse dirigida ao combate ao terrorismo e não desviada para outros fins. Mas a confirmação pública do almirante Mullen de que o arsenal está a crescer - uma opinião partilhada por muita gente em estudos confidenciais ou já tornados públicos - não deixará de desagradar ao Congresso. Não ficou claro se tal desagrado poderia vir a traduzir-se num atraso ou redução da ajuda ao Paquistão.Os briefings confidenciais aos congressistas tiveram lugar nas últimas semanas, enquanto o Paquistão ia caindo num caos cada vez maior e o Congresso apreciava propostas para gastar 3 mil milhões de dólares nos próximos cinco anos para treinar e equipar as Forças Armadas paquistanesas no combate aos fundamentalistas islâmicos. Essa ajuda militar somar-se-ia a uma verba de 7,5 mil milhões de dólares em ajuda civil. Nenhuma parte da ajuda militar proposta se destina ao programa nuclear. Até agora, a ajuda dos Estados Unidos à infra-estrutura nuclear paquistanesa restringiu-se a um programa secreto de 100 milhões de dólares destinado a ajudar Islamabad a tornar seguras as suas armas e materiais, protegendo-os da Al-Qaeda, dos talibãs ou de espiões dos rebeldes.As autoridades dos EUA reconhecem que a injecção de milhares de milhões poderia libertar outros fundos paquistaneses para a infra-estrutura nuclear. Responsáveis do Paquistão têm manifestado preocupação pelo facto de o programa nuclear nacional estar a sofrer cortes orçamentais, o que acontece pela primeira vez e é agravado pela situação económica mundial. O programa emprega dezenas de milhares de paquistaneses, entre os quais 2 mil pessoas que se acredita possuírem "conhecimentos essenciais" para a produção de armas. A dimensão do reforço militar paquistanês ainda não é completamente clara. "Vemos que estão a expandir as instalações de centrifugação", diz David Albright, presidente do Instituto de Ciência e Segurança Internacional, que tem vindo a acompanhar os constantes esforços do Paquistão para adquirir materiais no mercado negro e a analisar imagens de satélite de dois novos reactores de plutónio a menos de 150 km do local onde as forças regulares paquistanesas estão actualmente a lutar contra os talibãs. Em termos diplomáticos, o reforço militar paquistanês põe Obama perante um dilema potencial entre duas prioridades de segurança nacional, reconhecem alguns assessores. Uma é obter a celebração de um acordo a nível mundial para parar com a produção de material físsil - o urânio ou o plutónio utilizados para produzir armas. O Paquistão nunca concordou com quaisquer limitações e é um dos três países, a par da União Indiana e de Israel, que nunca assinou o tratado de não proliferação nuclear. A outra prioridade é a injecção maciça de ajuda financeira no Afeganistão e no Paquistão, verbas consideradas vitais para ajudar a estabilizar governos cujo exercício do poder é enfraquecido pela acção violenta de terroristas e rebeldes.Membros do Congresso exigiram garantias de que a assistência militar seria utilizada para combater os rebeldes e não para programas militares mais convencionais, destinados a fazer frente à União Indiana. A confirmação oficial que o Paquistão acelerou a expansão do seu programa nuclear só veio trazer mais reservas. A ameaça continua.
terça-feira, 19 de maio de 2009
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